Arte é manifestação cultural.

Cultura é sempre um assunto muito debatido. Peter Drucker dizia que “a cultura come estratégia no café da manhã”. Quando alinhada com estratégia e liderança, uma cultura forte leva a resultados organizacionais positivos.

Ashley Goodall e Marcus Buckingham dizem, em seu livro Nine Lies About Work, que cultura importa porque contribui com a identidade, com os processos e com a visão da organização. Além disso, a cultura é a resposta que as pessoas dão quando são perguntadas sobre “como é trabalhar aí?”. Dizem, ainda, que a cultura define o quão duro as pessoas trabalharão e por quanto tempo ficarão em sua empresa.

Cultura importa. Porém, cultura também pode ser um assunto complicado e confuso. Por isso, muitas vezes a cultura é relegada ao RH e tratada de forma secundária pelo negócio. Mas há como fazer um processo gerenciado de definição de cultura e dá menos trabalho do que você imagina.

Antes de falar sobre como definir uma cultura organizacional, é preciso entender o que é cultura.

O que é cultura?

Cultura possui algumas definições, entre elas:

  • É o sistema de conhecimento de um grupo relativamente grande de pessoas
  • É o comportamento cultivado, é a totalidade do que uma pessoa aprendeu, da experiência acumulada ao qual é socialmente transmitida – ou, mais brevemente – comportamento através de aprendizado social
  • É a forma de vida de um grupo de pessoas – os comportamentos, as crenças, os valores e símbolos que elas aceitam (geralmente sem pensar sobre eles) e que são passados adiante por comunicação e imitação de uma geração para outra
  • É comunicação simbólica. Alguns desses símbolos incluem as habilidades, atitudes, conhecimentos, valores e motivações de um grupo. Os significados dos símbolos são aprendidos e deliberadamente perpetuados em uma sociedade através de suas instituições

Como deu para perceber, cultura é sempre um fenômeno coletivo. E a cultura define o jogo social: as normas culturais definem o que é aceito ou não dentro de um grupo, além de orientá-lo em direção a um propósito compartilhado.

Essa é a primeira dica para gerenciar o processo de definição de cultura. Valores, direção, crenças, comportamentos são palavras-chave que traduzem bem para conceitos de gestão estratégica como visão, missão e valores. Também vale a pena falar em princípios.

Visão, missão, valores e princípios

Qualquer pessoa líder já se deparou com os desafios de definição de objetivos ou foram questionadas por clareza de propósito. Na gestão estratégica, as ferramentas para isso são a visão, a missão e os valores. Eu particularmente gosto das definições disponíveis no livro Product Roadmaps Relaunched:

  • A visão é o resultado que você busca no longo-prazo. A visão nos diz para onde queremos ir
  • A missão é a intenção que você tem agora. É o seu propósito, é o que te guia em direção a sua visão
  • Valores são crenças e ideais que governam o comportamento. Se a visão nos diz para onde queremos ir, os valores nos ajudam a corrigir o rumo para a visão

Na N26 Brasil, decidimos também definir um conjunto de princípios para a cultura de Engenharia. Princípios são ideias ou regras básicas que explicam ou controlam como algo deve funcionar.

Visão, missão, valores e princípios. Parece que já temos alguns bons elementos para começar a trabalhar, certo?

Defina de forma colaborativa

Se a cultura é um conjunto de crenças e mitos compartilhados, nada melhor que defini-la colaborativamente. A minha sugestão é estruturar um workshop com atividades bem definidas. Técnicas de gestão estratégica de produto e de facilitação de cerimônias ágeis são bem úteis para isso. Identifique, pelo menos, a visão e os valores.

Na N26 Brasil, fizemos esse processo em julho de 2021, quando o time de Engenharia inteiro era composto por apenas cinco pessoas. Precisávamos definir uma estratégia para a área e, para isso, precisávamos entender que tipo de cultura gostaríamos de cultivar. Com os elementos culturais definidos, ficou mais fácil criar uma visão de roadmap. Hoje, toda nossa estratégia técnica está alinhada com nossa cultura.

Caso esteja curioso sobre como executar um workshop desses, consulte o playbook que criei: ele contém um passo a passo semelhante ao que fizemos na N26 Brasil.

Documente, compartilhe, integre e reconheça

O mercado estremeceu quando a Netflix divulgou o seu famoso slide de cultura. Você deve fazer o mesmo. Definir a cultura é o primeiro passo. Após sua definição, crie um documento e deixe-o facilmente acessível para todas as pessoas da sua empresa. Para deixar o documento mais útil, forneça pequenas descrições sobre cada um dos elementos identificados da sua cultura: eles serão úteis para validar comportamentos e fornecer exemplos para as pessoas.

Porém, documento compartilhado não é a mesma coisa que conhecimento compartilhado. Apresente a cultura para todas as pessoas contratadas. Use cada oportunidade de interação para repetir os elementos da cultura: das All Hands às Daily Meetings, explore os elementos da sua cultura para que ela seja, de fato, compartilhada e assimilada por todas as pessoas.

Na N26 Brasil, a cultura é apresentada para todas as pessoas nas sessões de onboarding. Além disso, a leitura do documento de cultura é estimulada no plano 30-60-90 que estabelecemos para todas as pessoas das disciplinas de Engenharia.

Por fim, integre os elementos da sua cultura no seu processo de recrutamento e use os bons exemplos do dia a dia para reconhecer a contribuição das pessoas com o fortalecimento dela. Não existe uma receita pronta, a construção da sua cultura dependerá muito do cuidado e atenção dado à ela.

Valores da Engenharia da N26 Brasil

Destaco, a seguir, alguns dos valores de nossa cultura:

  • Profissionalismo: somos confiáveis e definimos altos padrões de conduta e execução. Nos importamos com o trabalho, com as pessoas e com nossos clientes e usuários
  • Pragmatismo: somos pragmáticos. Sabemos dosar quando chegamos em uma solução boa o suficiente, evitando over-engineering e cargo cult programming
  • Humildade: ninguém sabe de tudo. Toda dúvida é uma oportunidade para aprender. Senioridade não é um passe livre para comportamento desrespeitoso
  • Colaboração: os objetivos da N26 Brasil, das unidades e dos times são mais importantes que os objetivos individuais. O trabalho em time triunfa sobre o individual
  • Diversidade: vivemos em uma sociedade miscigenada e de cultura diversificada. Atender à pluralidade da sociedade só será possível com um time igualmente plural

A cultura de Engenharia da N26 Brasil é uma cultura em formação. No momento em que escrevo esse texto, 64% do time tem menos de 6 meses de empresa. O mesmo cresceu 400% entre setembro de 2021 e janeiro de 2022. Mesmo assim, é possível ver os valores definidos por aquele pequeno grupo de pessoas em ação nas entrevistas, no onboarding, nos OKRs, no roadmap, na priorização de tarefas e na comunicação entre as pessoas.

Viva a cultura e seja seu maior exemplo

Qualquer pessoa exercendo liderança (seja ela posicional ou não) deve ser o maior exemplo da cultura organizacional. Como bem destacado pelo David Anderson, o potencial de uma organização sempre será limitado pela maturidade da sua liderança:

A maturidade de uma organização sempre será limitada pela maturidade de sua liderança. Resultados de negócios e aspirações sempre serão limitadas pela cultura e pelos valores.

Uma liderança madura sempre irá trabalhar para criar um senso de alinhamento, unidade e de propósito compartilhado. Uma liderança madura gerencia a cultura e a identidade. Uma liderança imatura é egoísta, narcisista e manipulativa. Uma liderança madura trabalha na cultura e identidade da organização.

O trabalho de criar uma cultura é árduo e requer muita repetição e consistência. Definir valores e princípios e não vivê-los como pessoa em liderança é o primeiro passo para criar cinismo na equipe.

O mesmo vale para momentos de medidas drásticas, em que certos elementos da cultura são desafiados: deixe claro para todas as pessoas quais são as circunstâncias e porque certas concessões são necessárias. A consistência se pagará neste momento.

Já parou para pensar na sua cultura hoje?

Agradecimentos

Não poderia deixar de agradecer a todas as pessoas que fazem parte do time de Tecnologia da N26 Brasil (Data, Design, Engenharia e Produto), por terem comprado o desafio de mudar a nossa relação com o dinheiro. Em especial, muito obrigado aos participantes do workshop de julho de 2021: Antonio Spinelli, Diógenes Medeiros, Henrique Sloty e Thiago Costa.

Referências